Crise de valores morais na sociedade atual é tema de artigo assinado pela escritora Mabel Amorim


Estamos vivendo tempos difíceis. Não me refiro apenas às dificuldades por que passa o mundo, com suas crises européias, seus conflitos no Oriente, suas ditaduras resistentes. Esses fatores estão vinculados a outros e existem diversas instituições empenhadas em resolver essas questões.

Refiro-me a crise que vem assolando nossa sociedade. A crise de valores. Valores morais. Não, não olhem para mim como se eu fosse mais um desses pequeno-burgueses que vivem apregoando conceitos e acobertando preconceitos. Estou longe disso, mesmo com meus inúmeros defeitos. Falo de valores como a dignidade, o respeito, a tolerância, a honradez, a honestidade, a generosidade, a caridade. Esses e outros tantos estão perdendo força no nosso dia a dia.

Há alguns dias as pessoas estavam discutindo um possível estupro ocorrido num programa de reality show chamado BBB, como se isso fosse bastante improvável num lugar onde jovens confinados passam os dias conspirando, malhando, alcoolizando-se em festas e insinuando-se uns para os outros. Um outro reality mostra um grupo de mulheres ricas e seu cotidiano, digamos, rico de frivolidades. E nem vou me dar ao trabalho de comentar os programas “de entretenimento” que costumam passar nos finais de semana. Esses programas expõem seu cabedal deletério e alimentam as mentes ociosas com suas futilidades. Tudo parece fácil, acessível, colorido.

Em que situação estamos, afinal? Que tipo de pessoas estamos ajudando a formar? Sim, pois nem digam que não temos nada com isso porque temos sim. Temos nossa parcela de responsabilidade quando deixamos nossos filhos a mercê de uma programação televisiva perniciosa, de internet sem controle, quando não impomos limites, quando não os repreendemos, quando não conversamos, quando não punimos suas faltas com justiça, quando não participamos responsavelmente de sua vida, quando transferimos para babás, escolas e amigos a tarefa de cuidar e formar seu caráter.

E tem mais. Não é só dos nossos que devemos cuidar mas da sociedade em que vivemos. Estar atento com a educação e saúde dos menos favorecidos, daqueles que não dispõem dos recursos necessários para lhes dar condições dignas de vida, fiscalizar, cobrar das autoridades atitudes resolutivas dos seus problemas.

Tem uma historinha de um rato que morava em uma fazenda e um dia viu o dono montando uma ratoeira na cozinha. Ele ficou muito assustado e, sentindo a grave ameaça a sua vida, foi correndo contar a novidade para a galinha, o porco e a vaca. Eles não lhe deram atenção, explicando que aquele era um problema dele e que isso não os afetava. Pois bem, uma cobra foi pega na ratoeira e quando a mulher do fazendeiro ouviu o barulho, foi olhar de perto, pensando ser o rato. A cobra picou-a e ela ficou acamada. O fazendeiro mandou matar a galinha para fazer uma canja para a mulher doente. Porém a mulher piorou e ele precisou chamar alguns parentes para ajudá-lo, então matou o porco para servi-lo a essas pessoas. Em pouco tempo a mulher veio a falecer, o que trouxe à fazenda muitos parentes e amigos para o velório e sepultamento, levando o fazendeiro a matar, enfim, a vaca para alimentar a todos. Só o rato sobreviveu.

Algumas vezes nossas atitudes se assemelham a destes animais. Acreditamos que o problema do outro está muito distante de nós e não poderá nos atingir, aí viramos o rosto e continuamos a cuidar da nossa vida, como se ela, a vida, não fosse cíclica e não nos levasse, em algum momento, a sentir a consequência direta ou indireta de nossas ações e omissões.

Tenhamos sensibilidade para nos incomodar com a dor do outro e caridade para tentar amenizá-la. Existem diversas maneiras de se fazer isso, doando livros para pessoas e instituições carentes, palestrando em comunidades e escolas, atuando como voluntário em atividades que visem a melhoria das condições de vida dos necessitados, consultando as ações dos parlamentares, enfim, cada um pode buscar a sua maneira de efetivamente contribuir. Palavras confortam, encorajam, fortificam mas só atitudes transformam. Chega de aplaudir discursos, cobremos ação mas ajamos também. Não percamos nossa capacidade de indignação e reação ante o que aflige a nós e aos outros, afinal, os outros somos nós sob outro ângulo.


Sobre a autora
Mabel Amorim é alagoana de Maceió, radicada em Campina Grande, Paraíba há vinte anos. Bacharela em Direito pela UEPB, encontrou na literatura uma maneira ímpar de exercitar os sentidos. Ler sempre foi uma paixão da alma. Escrever tornou-se uma necessidade irresistível. Participou de antologias e concursos literários. Publicou o romance A última chance em 2008, pela Editora Scortecci, lançando-o na XX Bienal do livro de São Paulo. Em 2011 publicou Os segredos do sótão pela Meta Editora, para o público infantil, com o qual participou da II Feira Literária de Boqueirão-PB, VI FLIPOÇOS – Feira Literária de Poços de Caldas-MG, VII Bienal do livro de Pernambuco e V Bienal do livro de Alagoas. Mantém uma coluna no site ParaibaOnline.com.br.
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